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A Batida que Faltava à Praça

Na véspera de um grande festival, Matilde e Simão seguem pistas sonoras pela praça para reconstruir a sequência perdida de uma atuação.
Matilde e Simão seguem um mapa de ritmo numa praça iluminada por lanternas, com uma pequena figura de palco sobre o percurso.

Na Praça das Lanternas, em Lumealto, ninguém conseguia ficar quieto na tarde do Festival do Ritmo. Havia fitas a dançar entre as varandas, bancos a serem afastados para abrir espaço e músicos a testar sons curtos: tum, tin, pá, plim.

Matilde chegou com uma pequena figura de palco na mão. Tinha catorze centímetros e, para ela, era perfeita para ensaiar aventuras em miniatura. Quando os adultos diziam “ainda falta muito para começar”, Matilde respondia:

— Então dá tempo para uma missão.

Naquele dia, a missão apareceu sem ser inventada. Dona Celeste, que organizava o espetáculo de abertura, estava ajoelhada junto a quatro cartões coloridos espalhados no chão.

— Temos um problema — disse ela. — Sei quais são as quatro batidas da entrada, mas a tira onde estava escrita a ordem voou com o vento.

Os músicos olharam uns para os outros. Cada grupo conhecia o seu som: os tambores faziam “tum-tum”, os sinos pequenos respondiam “plim”, as palmas marcavam “pá-pá” e duas baquetas de madeira faziam “tac”. Só ninguém sabia quem começava.

Matilde pousou a figura sobre um mapa da praça que estava em cima de uma caixa.

— E se descobrirmos o caminho da música?

O amigo Simão inclinou-se para ver melhor.

— Música não tem pés.

— Esta tem — respondeu Matilde, avançando a figura uma casa no mapa.

Os dois começaram pela entrada norte, onde os visitantes atravessavam um arco de lanternas. Ali, o senhor Artur, da banca dos sumos, lembrava-se de Dona Celeste ter passado de manhã a bater com dois lápis na mesa.

— Tac, tac, tac — imitou ele. — Depois apontou para a fonte.

Matilde virou a figura na direção da fonte e avançou-a pelo mapa.

Junto à água encontraram Inês, que pendurava estrelas de papel. Ela fechou os olhos para se lembrar.

— Dona Celeste ficou aqui a experimentar os sinos. Fez “plim” uma vez e depois duas muito depressa. E a seguir caminhou para o coreto.

No mapa, a pequena figura mudou novamente de direção.

— Tac, depois plim — disse Simão. — Já temos metade.

No coreto, porém, apareceram duas pistas ao mesmo tempo. Um músico jurava que tinha ouvido palmas. Outro tinha a certeza de que os tambores tinham começado primeiro.

— O som mais alto deve vir antes — decidiu Simão.

Matilde não ficou convencida, mas experimentaram. Alinharam quatro pedrinhas ao lado do mapa para representar a sequência: tac, plim, tum-tum, pá-pá.

Quando os músicos ensaiaram, a praça encheu-se de um barulho apressado. As palmas entraram tarde, os tambores pareceram tropeçar nos sinos e até Dona Celeste fez uma careta.

— Não é isto — disse ela. — A abertura parecia uma caminhada, não uma corrida.

Matilde pegou novamente na figura e voltou ao princípio do mapa. Em vez de pensar nos sons, observou o percurso: entrada norte, fonte, coreto… e depois?

Ao lado do coreto havia uma faixa de giz no chão, quase apagada por tantos passos. Quatro setas apontavam para o centro da praça. Matilde colocou a figura sobre a primeira seta e fê-la seguir o traço.

— Olha! — chamou. — A música não está ordenada pelo volume. Está ordenada pelo caminho.

Seguiram as setas até uma fila de cadeiras, onde uma menina pequena esperava com a avó. A menina começou a bater palmas ao ver a figura avançar pelo chão.

— Pá-pá! Pá-pá!

A avó riu-se.

— Foi aqui que a senhora do festival ensinou as palmas de manhã.

Faltava apenas um som.

A última seta terminava junto ao centro da praça, exatamente onde os tambores estavam preparados.

Simão abriu os braços.

— Então é tac, plim, palmas e só depois tum-tum!

Matilde colocou a figura no meio do mapa, como se tivesse acabado de chegar ao palco.

— Agora faz sentido. Primeiro entramos, depois ouvimos, depois chamamos toda a gente com as palmas… e no fim chegam os tambores.

Dona Celeste ergueu as sobrancelhas.

— Parece-me que acabaram de encontrar a tira sem encontrar a tira.

Fizeram novo ensaio. Tac. Um pequeno silêncio. Plim-plim. Pá-pá. E então: tum-tum.

Desta vez, ninguém tropeçou em ninguém. A sequência crescia como passos que se aproximavam. Algumas pessoas que estavam a montar bancas começaram a acompanhar com a cabeça. Outras bateram o pé no chão.

Quando o céu escureceu e as lanternas se acenderam, a praça estava cheia. Matilde e Simão ficaram junto à caixa do mapa. A pequena figura permanecia no último quadrado, virada para o palco.

Dona Celeste levantou a mão.

Tac.

Plim-plim.

Pá-pá.

Tum-tum.

A praça inteira respondeu com um aplauso que parecia mais uma quinta batida.

Simão aproximou-se de Matilde e falou baixinho:

— Afinal a música tinha mesmo pés.

Matilde sorriu, pegou na figura e fê-la dar um pequeno salto sobre o mapa.

— Eu avisei.

E, durante o resto da noite, sempre que alguém perguntava como tinham descoberto a ordem certa, Matilde apontava para o caminho desenhado a giz. Porque às vezes uma grande atuação começa com uma coisa muito pequena: prestar atenção ao próximo passo.

3 ideias de brincadeiras

Mapa do ritmo. Desenha um percurso simples numa folha, coloca a figura num ponto de partida e inventa um som ou movimento para cada paragem.

Sequência surpresa. Escolhe quatro sons feitos com palmas, dedos ou objetos seguros de casa e tenta descobrir quantas ordens diferentes consegues criar para uma pequena atuação.

Missão de palco. Inventa um espetáculo com princípio, surpresa e final. Usa a figura para decidir onde começa cada cena e conta a história em voz alta enquanto a fazes avançar.

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